It's not easy

No início do ano eu decidi parar de comer carne.

Não que eu comesse quilos e quilos de carne por dia, na verdade eu comia muito pouco, quem já teve a honra de almoçar comigo sabe que era muito difícil ter carne no meu prato, mas eu comia um peito de frango, uma carne moída, essas coisas assim, nada muito exagerado, mas decidi parar de vez porque a vida é feita de escolhas e a gente escolhe o que considera melhor não é mesmo?

Se tudo fosse simples e tranquilo assim seria ótimo, porém somos julgados o tempo todo por nossas escolhas, não que eu me importe ou tenha que me justificar, mas quero dar minha opinião sobre a minha própria decisão. Decidi não comer mais porque sinto esse chamado desde criança, quando no sítio onde morava via os animais serem abatidos e chorava escondida porque não podia fazer nada para ajudá-los. Também porque não gosto do cheiro nem do sabor da maioria das carnes e comia por "obrigação".

Vejam bem, eu sou nutricionista e quando se está nesse ramo você corre o risco de ouvir todo tipo de "bullshit" relacionado à alimentação, principalmente sobre a sua alimentação, porque você "tem que" dar o exemplo e COMO ASSIM UMA NUTRICIONISTA NÃO COME CARNE? É NA CARNE QUE ESTÃO TODAS AS PROTEÍNAS QUE O CORPO PRECISA E CARNE É VIDA E BLÁ BLÁ BLÁ. Vocês querem ensinar o padre a rezar missa?

Eu estudei quatro anos pra saber disso, ok? Eu sei das proteínas, e tudo mais sobre a carne, eu apenas decidi que não queria mais aquilo pra minha vida. E o fato de eu ter estudado tanto sobre os alimentos, e continuar estudando, é que tem me ajudado muito nessa minha decisão, porque cada dia descubro um prato diferente, uma maneira de substituir, e conseguir todos os nutrientes que preciso, e não, não é só na carne que tem proteína.

Por conta da decisão, conheci várias pessoas muito legais que são vegetarianas a muito mais tempo e que dividem experiências que agregam muito no meu conhecimento sobre o assunto, dentre elas a Carla, do blog Outra Cozinha que em uma das suas newsletters disse uma frase que cabe muito aqui: "Não me incomodo exatamente pelas perguntas, e a curiosidade genuína até me faz ter prazer em responder e falar do assunto. O que não gosto é quando elas são feitas com um tom de incredulidade, como se fosse completamente absurdo e ofensivo que alguém possa ser um pouquinho diferente." E é incrível, mas as pessoas se ofendem com isso, como se o fato de eu não comer carne fosse influenciar na alimentação delas.

Quando vai ficar claro que essa é uma decisão pessoal? Eu decidi por mim mesma, mas não se preocupem, não vou ser a vegetariana chata que sai dando lição de moral em todo mundo e dizendo que todos devem ouvir a palavra do vegetarianismo. É claro que, se alguém se sentir motivado eu darei o total apoio e até ajudo com algumas dúvidas, mas não vou ser militante.

Até porque eu entendo todos os pontos de vista, existem pessoas que amam comer carne e tá tudo bem, existem aquelas pessoas que comem porque apesar de ser um item relativamente caro no mercado é mais acessível do que uma alimentação vegana, por exemplo e tá tudo bem também porque ninguém é melhor do que ninguém por aquilo que come ou deixa de comer, a não ser que você seja o Hannibal, aí talvez seja julgado sim.

Nesses últimos dias a carne está na mídia devido as recentes operações da polícia federal depois das descobertas "chocantes" de empresas que manipulavam carne estragada e colocavam papelão na mistura de determinados tipos de embutidos, dentre outras irregularidades. Isso foi mais um dos motivos que me fizeram acreditar que estou no caminho que eu considero certo, mas se o seu caminho não é esse, ok. Vamos apenas ser empáticos e almoçar juntos, sem ser fiscal de prato de ninguém.

Guelã

Ou o dia em que eu não fui no show da Gadú.

Não faz muito tempo que comecei a gostar de MPB, na verdade, fazem oito anos, o que comparado a uma vida toda é relativamente pouco tempo. Acontece que na minha adolescência fui muito roqueira sim, daquelas que pensava que só o rock era bom e que o restante era lixo, shame on me por isso.

Mas meu pensamento começou a mudar quando entrei na faculdade, essa época é incrível porque você descobre o universo e percebe que o seu mundinho particular era tão pequeno e se vê rodeada de coisas novas e deslumbrantes. E então a vida me apresentou O Teatro Mágico e com eles descobri que a música não é só o rock'n roll pesado que estava acostumada a ouvir (e que, muitas vezes, não traduzia o que eu era, porque sim a música que gostamos diz muito sobre como somos), mas que a música é, mais do que qualquer coisa: poesia.

Depois desse primeiro contato com a Música Popular Brasileira, fui conhecendo outros artistas similares e a Maria Gadú estava começando, lá no seu Shimbalaiê e foi entrando de mansinho conquistando meus ouvidos e coração, ela juntamente com OTM fizeram o meu gosto musical ser como é atualmente: bem poético por assim dizer. Claro que a essência "roquenrou" continua, mas aprendi a aceitar muito mais os outros gêneros musicais e entender que cada um tem a sua beleza, alguns me encantam mais, outros eu não ouço, mas respeito, como deve ser em tudo na vida não é mesmo? Porque música é expressão, seja do que for, e a expressão deve ser livre. 

E nesse quesito de ouvir e sentir aquilo que está sendo cantado, mais do que qualquer outro artista, as músicas da Gadú conseguem entrar dentro de mim e transmitir uma paz tão incrível que é como se eu estivesse meditando. É a voz, misturada com a letra que fazem aquilo se transformar no melhor calmante que eu poderia experimentar. Pode parecer exagero, mas ouvir a voz dela num dia em que tudo parece escuro é uma luzinha no fim do túnel.

"Quando tá escuro e ninguém te ouve
Quando chega a noite e você pode chorar
Há uma luz no túnel dos desesperados
Há um cais no porto pra quem precisa chegar"

Eu nunca fui num show dela, mesmo que isso seja um sonho muito antigo. Ontem ela fez uma apresentação do tour Guelã na cidade onde eu estava morando quando comecei a ouvi-la, seria o lugar perfeito pra vê-la pessoalmente pela primeira vez, porém show na quinta-feira é totalmente inviável pra mim, principalmente por significar uma viagem de 268 Km até lá. E eu já estava conformada de que dessa vez não daria. Porém ao ver essa foto:

Uma publicação compartilhada por || m a r i a g a d ú || (@mariagadu) em
Meu coração até acelerou porque ela estava no Parque do Lago, um lugar que era praticamente o meu quintal quando morei lá, ela estava pisando na ponte que atravessei tantas vezes, olhando para as mesmas águas que já admirei em tantos finais de tarde. Confesso que até dei uma choradinha de leve junto com a minha irmã que também não foi no show.

Mas depois de tanto me lamentar, entendi que eu tinha mesmo é que ser grata por (citando Carl Sagan) "diante da vastidão do tempo e da imensidão do universo" estar dividindo o mesmo planeta e a mesma época com Gadú e vê-la ali me fez perceber o quanto ela é real e que tudo o que escreve e canta é verdadeiro. Maria, nos encontramos por aí, foi bom te ver (mesmo que por foto) na terrinha que cresci.

"Será que te conheço desde a infância?
Será que na infância eu parti?
Prum mundo imaginado por você
Ou por você um mundo veio
E a infância assim se foi"